Terapia de Casal

Catarina Lucas é psicóloga, autora de vários livros para profissionais da área da Psicologia, dedica-se à investigação e intervenção nas áreas de terapia de casal, sexologia, aconselhamento parental, ansiedade e pânico, depressão, distúrbios alimentares, psicologia da infância e da adolescência, entre outros. A Frederica entrevistou-a e quis saber mais sobre a Terapia de Casal. Leia a entrevista completa, abaixo.

Olá, Catarina. Obrigada pela sua disponibilidade e interesse. Antes de mais, e para esclarecer (porque pode parecer algo óbvio), o que é a Terapia de Casal?

A terapia de casal é uma abordagem psicoterapêutica, realizada por psicólogos ou psiquiatras com formação na área, que visa a intervenção no casal e nas suas dificuldades. Intervir diretamente na relação permite soluções que muitas vezes não se consegue quando se intervém individualmente. A terapia de casal facilita o processo de mudança necessário ao ajustamento de duas pessoas com ideias, valores e vivências diferentes. Promove a diminuição do conflito e a melhoria dos estilos comunicacionais. É importante salientar que a terapia de casal não tem como objetivo a manutenção de relações, mas sim ajudar o casal a encontrar o seu caminho, seja junto ou separado. Nem sempre a solução passa por manter a relação e, nestes casos, a terapia de casal transforma-se em terapia do divórcio, ajudando a que o processo ocorra com o menor dano possível para as partes.

Que tipo de casais procura este tipo de terapia?

Não existe um perfil específico de casais que procuram a terapia de casal. Todavia, há uma prevalência maior de casais que já se encontram numa relação há algum tempo e onde, como é normal, as dificuldades começam a fazer-se sentir, ocupando um lugar onde antes existia apenas a paixão e enamoramento dos primeiros tempos. Dentro disto, podemos ter casais com 30 anos ou com 50 anos. Esta consulta começa a ser também procurada por casais homossexuais. Por norma, quando os casais chegam à consulta já se encontram em grande conflito e com sérias dificuldades na sua gestão, sendo a terapia muitas vezes olhada como «último recurso», o que não é em si um bom princípio, pois o nível motivacional para o processo de mudança e ajustamento já se encontra diminuído.

A procura tem aumentado? O tipo de «queixas» são as mesmas de sempre ou com o passar dos anos e com a entrada de mais tecnologia nas nossas vidas há cada vez mais problemas diferentes entre os casais? 

Sim, a procura pela consulta de terapia de casal tem aumentando significativamente nos últimos anos, o que pode dever-se a vários fatores, entre os quais a maior familiarização das pessoas com a psicoterapia, mas também com as dificuldades que as relações amorosas vivenciam nos tempos atuais. Há queixas que se mantêm, como por exemplo as infidelidades, as dificuldades em comunicar para chegar a entendimentos no dia a dia, a sexualidade, os filhos e a gestão da família alargada. Contudo, é verdade que as tecnologias acentuam algumas destas situações, como as desconfianças, sobretudo devido à facilidade com que se estabelecem contactos com outras pessoas. Há muitas discussões em torno do uso das tecnologias e das redes sociais, o que leva a quebras de confiança e invasão da privacidade do outro. É comum termos casais em consulta motivados por infidelidades descobertas nas redes sociais e aplicações.

Só os casais com problemas procuram a terapia de casal? 

Maioritariamente sim. Quando um casal procura a terapia de casal é porque já identificou alguma dificuldade que não está a conseguir gerir sozinho. Mais do que um casal com problemas, aqueles que nos chegam são na maior parte das vezes casais em crise, já que há uma tendência para recorrer a este tipo de consulta numa fase já muito avançada do problema, quase numa situação limite. Muitas vezes inicia-se uma terapia de casal, mas a certa altura estamos já a fazer uma terapia de divórcio. No entanto, os casais beneficiariam em fazer esta intervenção com objetivo de melhorar alguns aspetos e desenvolver-se enquanto casal e não apenas como uma solução de emergência.

Quais os resultados que o casal pode ter e ao fim de quantas sessões consegue ver algumas mudanças? 

Não existe uma previsão exata do número de sessões, já que o processo depende muito mais do casal do que do terapeuta. Quando não existe motivação e empenho no processo, provavelmente todas as sessões serão infrutíferas. Além disto, cada casal é único e cada problemática é diferente. Há casais que ultrapassam uma infidelidade, por exemplo, em pouco tempo e outros que nunca o chegam a fazer. Dependendo do casal e das dificuldades, consegue-se melhorar a forma como comunicam e se ouvem, a sexualidade, a gestão familiar e a própria dinâmica relacional. Contudo, não há soluções mágicas e este é um trabalho conjunto.

Quem fica mais reticente em relação à terapia de casal? O homem ou a mulher? 

Se falarmos em relações heterossexuais, por norma, ainda é o homem o mais resistente, muito se devendo a questões culturais como as ideias pré-concebidas de não falar dos problemas com estranhos, não mostrar fragilidade e, às vezes, inclusivamente, não mostrar emoções. Felizmente, esta tendência começa a inverter-se e já muitos homens compreendem as vantagens desta intervenção.

Sem querer entrar em pormenores, tem algum bom e menos bom exemplo de casais que fizeram terapia? Quais foram os resultados? 

Um exemplo negativo foi um casal que chega após infidelidade e onde o clima de hostilidade, tensão, crítica, humilhação e agressividade verbal era tão elevado que foi impossível dar continuidade ao processo. Nestas condições é impossível ajudar um casal, pois não está sequer salvaguardado o princípio básico do respeito entre as partes. Por outro lado, no caso de um casal que chegou por divergências no estilo de vida, pressupostos diferentes e visões dos objetivos de vida distintas, foi possível chegar-se a consensos e aprender a gerir as diferenças, sem que estas colocassem em causa a relação. Algum tempo depois de finalizarmos o processo, chegou-me o feedback de que as coisas estavam bem e que tinham encontrado um meio termo para grande parte das coisas, tendo-se evitado a rutura.

Acha que os casais que fazem terapia sentem alguma vergonha em fazê-la e por isso preferem que ninguém saiba que recorrem a este tipo de ajuda? Ou é da opinião de que as coisas estão a mudar e que cada vez mais é um assunto aberto? 

De forma geral, e não apenas com a terapia de casal, mas sim com a psicologia de uma forma mais ampla, as pessoas falam muito mais abertamente do que o faziam há 10 anos. Deixou de ser um assunto tabu, embora ainda haja algumas reservas, pois continua a ser uma consulta que incide em aspetos muito íntimos da pessoa. Particularmente, na terapia de casal existem mais algumas reservas, porque a vida privada de um casal continua a ser das áreas onde as pessoas menos gostam de assumir vulnerabilidades.

O que é para si o mais desafiante da sua profissão? 

A complexidade do ser humano e particularmente dos casais. Quanto mais «mergulho» na terapia de casal, na investigação sobre o casal, mais complexo me parece e mais apaixonante se torna. À medida que vamos estudando mais, que vamos ganhando experiência, mais desafiante se vai tornando, pois a verdade é que compreender o ser humano exige compreender uma multiplicidade de fatores que normalmente não estão totalmente ao nosso alcance. Enquanto psicóloga, gosto particularmente de trabalhar na mudança, gosto de finalizar processos terapêuticos e de ver as pessoas ganharem as suas «asas» e deixarem de precisar de mim. É um misto de emoções ao ver a pessoa partir, mas é também a gratificação de que cumpri a minha missão. Processos terapêuticos difíceis também me motivam particularmente. O desafio e a dificuldade são uma fonte de motivação para muitos de nós, independentemente da área em que se trabalhe.

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