Mariana Monteiro: “Estamos Longe de Atingir a Mudança Para a Igualdade”

Foi no programa de televisão Morangos com Açúcar que a vimos pela primeira vez: nessa altura tinha apenas 16 anos. Hoje, aos 30, Mariana Monteiro é uma mulher de sonhos e de convicções. Tendo construído uma carreira de sucesso enquanto atriz, munida de desafios superados e de objetivos alcançados, estamos perante uma mulher que decidiu associar-se a campanhas de sensibilização para causas sociais que importam – e foi precisamente acerca deste tema que a Frederica quis saber mais.

Abaixo, leia a entrevista completa desta mulher inspiradora.

A Mariana tem estado associada a várias campanhas de sensibilização para causas sociais, como a violência doméstica, a crise dos refugiados e migrantes e a igualdade de género. O que a fez ligar-se a estes projetos? Qual o seu principal objetivo?

De facto, desde muito cedo que comecei a ouvir falar e a dar atenção a temas sociais relacionados, designadamente, com as questões da igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres, com a condição das mulheres, a discriminação, a violência doméstica. Tudo isto se deu muito por força da ligação profissional do meu pai a estas matérias, enquanto sociólogo, a trabalhar na antiga CIDM (Comissão para a Igualdade e Direitos das Mulheres) que é hoje CIG (Comissão para a Igualdade de Género). Isto poderá ter influenciado o meu interesse por estas causas. Por outro lado, sempre tive vontade de usar a minha imagem pública e de dar o meu contributo a favor destas mesmas causas e, deste modo, ajudar a passar a mensagem, particularmente junto das populações mais jovens. Foi assim, neste contexto, e numa parceria com a Betweien – empresa dedicada à inovação na educação – com o intuito de sensibilizar para o tema da igualdade de género junto das crianças do 1º ciclo, foram editados os meus livros: Mariana num Mundo Igual (2015) e Mariana no Caminho da Igualdade (2018). É uma forma de partilhar informação e de ajudar, de maneira simples e pedagógica, a combater o preconceito e a discriminação.

Por vezes, por falta de informação ou por excesso de amor, podemos estar numa relação amorosa violenta e achar que é normal. Porém, numa geração cada vez mais informada, como se consegue entender que algo está errado, por forma a conseguir avançar e mudar o que está mal?

A informação existe, de facto, mas também existe muita desinformação que pode baralhar muita gente. Hoje existem diversas instituições e organizações que informam e apoiam diferentes públicos e, desde logo, também os jovens, sobre como viver uma relação amorosa com normalidade no respeito pelos direitos de cada um, e prevenir situações de violência ou maus tratos no namoro ou numa relação conjugal. É o caso da CIG, UMAR, APAV, Associação Corações com Coroa, entre outras, a que se pode recorrer em casos de violação desses direitos. No caso da Associação Corações Com Coroa, da qual sou porta-voz para os temas da juventude, tem sido feito um trabalho notável na divulgação e na prevenção do tema da violência no namoro, através de um projeto – CCC vai à Escola – que consiste numa peça de teatro, realizada em sala de aula, seguida de debate sobre o tema. Mais recentemente, e neste âmbito, foi editada pela Associação CCC uma canção com letra da sua presidente, Catarina Furtado, com a música de Tiago Bettencourt e com a interpretação de Daniela Melchior, intitulada: «O que é ser normal? Apontar o dedo ao mal». É um alerta e uma mensagem para os jovens de que «amar não é gostar» e…  «controlar não é amar». A música é uma ferramenta muito poderosa e usá-la para passar boas mensagens é um grande feito.

Continua a existir o estigma de que os homens são mais violentos do que as mulheres. Todavia, a verdade é que este não é um cenário totalmente real. O que tem a dizer sobre isto?

Não é estigma, é, infelizmente, uma realidade: a violência atinge, em larga percentagem (cerca de 80%), as mulheres – sobretudo a violência física. Soubemos há dias que neste ano de 2019 já foram assassinadas 9 mulheres em Portugal pela mão de homens! Esta é a triste realidade…

Gestos como a invasão de privacidade através do acesso involuntário ao telefone, a exigência em saber as passwords, a proibição da convivência com outros amigos e o impedimento de se vestir o que realmente se deseja são também formas de violência. Na sua opinião, aos olhos dos mais novos, este comportamento é permitido e encarado como um ato de amor e de preocupação?

Esses são exemplos de manifestações de violência que coexistem mais entre os jovens no namoro, sendo as raparigas as mais atingidas, mas elas próprias já exercem também algumas dessas agressões. Nas escolas por onde tenho passado a falar sobre o tema, apercebo-me da reação de algum espanto dos jovens quando lhes digo que, por exemplo, não são obrigados a partilhar as suas passwords, porque isso é invasão de privacidade e obrigar a isso é uma forma de violência, como controlar saídas, ou impedir o uso de determinada peça de vestuário… Tais comportamentos não podem ser entendidos como gestos de amor, mas antes formas de domínio, de manipulação e de opressão.

De que forma acredita que este tema será tratado daqui por dez anos? Será que estaremos a passar pela mesma problemática, ou será que tudo poderá acabar?

Há mais de 40 anos que estas questões da igualdade de direitos, discriminação, maus tratos e violência vêm sendo debatidas na sociedade portuguesa; foram alteradas muitas leis, conseguiram-se muitos avanços, mas estamos longe de atingir o objetivo da mudança de mentalidades e atitudes que levem a uma igualdade e à eliminação de preconceitos e de estereótipos. No entanto, a mudança vai-se fazendo, e daqui a 10 anos ainda será cedo para alcançar esse objetivo, mas certamente que se registarão muitos avanços no caminho para a igualdade de direitos e oportunidades de maior respeito entre homens e mulheres, rapazes e raparigas. Certamente viveremos numa sociedade mais equilibrada em matéria de igualdade género.

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