As Eternas (e Insuportáveis) Cobranças da Sociedade

“Tens de tirar a carta aos 18 anos, tens de perder a virgindade por volta dessa idade e tens de ir para a faculdade a seguir. Depois, deves arranjar um emprego, casar e ter filhos”. Quem é que um dia disse que isto tinha de ser tudo assim? Quem disse tudo isto, ao ponto de sentirmos que somos uma bola fora do saco, à mercê do julgamento social, quando nos encontramos nestas idades e não cumprimos ainda o que é “suposto”? Se não temos estudos, somos burros ou preguiçosos. Se não temos marido/namorado, somos encalhadas ou homossexuais. Se decidimos não ter um filho ou construir família, somos solitárias e egoístas.

“Eu, com a tua idade, já tinha a carta”; “então e o bebé? É para quando? Já está na altura…”; “tens de arranjar um marido!”; “Oh meninas, e a Maria que com 23 anos ainda é virgem? Não acho normal…”. Até quando?

Não gostamos todos do mesmo. Não temos todos os mesmos interesses, nem queremos todos a mesma coisa. Se o nosso irmão gosta mais de carros e nós gostamos mais de livros, não será normal que aos 18 anos ele tire a carta à primeira e nós acabemos o 12° ano, sem nunca termos chumbado? Com o passar do tempo, provavelmente nós não vamos ter a carta mas vamos estar licenciadas. Ele vai ter a carta e, se calhar, vai estar longe de terminar o curso.

E a nossa prima, que gosta mais de viajar, provavelmente não vai ter um bebé aos 30 anos, mas vai conhecer sítios e pessoas incríveis que nós (que gostamos mais de estar sossegadas) não vamos ter a oportunidade de conhecer. É assim! E não é por isso que uma, ou outra, tem de ouvir, constantemente, quer entre amigos, quer nos jantares de família, os típicos comentários que, em geral, começam todos da mesma maneira: “eu com a tua idade…”. Com a minha idade, eu quero é ser feliz.

Se, por exemplo, uma mulher tiver mais do que um filho dos seus dois ou três casamentos, automaticamente será criticada. E a problemática dos divórcios? O modo como ainda se olha com reprovação para quem decidiu, ao fim de 30 anos, por termo a um casamento… é algo que ainda se perpetua.

Dentro da questão da idade: e se a nossa avó, com setenta anos, começar a sair com um senhor que conheceu nas aulas de yoga, onde vai religiosamente todas as quartas-feiras, vai ser estranho? Porquê? Porque já não tem idade para namorar? Onde é que estão escritas as idades em que se pode ou não pode fazer certas coisas? É isso, exatamente, em lado nenhum. São as nossas cabeças que criam este tipo de preconceito. Ela pode ter setenta anos, mas também pode voltar a ser feliz e sentir borboletas na barriga por ir ter um date, não concorda?

Nada na vida, muito menos na vida do outro, é obrigatório. De onde é que estas ideias surgiram? É só uma ilusão! Todos estes padrões foram sendo criados por nós, por uma sociedade que foi ao longo dos anos, juntando peças de um puzzle sobre “aquilo que é suposto”. Um puzzle que se pauta pela igualdade de género, que condena o racismo, as diferenças de homem para mulher mas que, quando surge, por exemplo, alguém do sexo masculino que decidiu para a sua profissão ser manicura, condena. Se pesquisarmos na wikipédia, o significado de manicura: “é um profissional, normalmente do sexo feminino, especializado no tratamento das unhas das mãos e dos pés”.

“Normalmente do sexo feminino”? São este tipo de pormenores que fazem com que, ao longo do tempo, se vão construindo os padrões e as imposições sociais. E sabem o que acontece a seguir? Quem um dia for arranjar as mãos e der de caras com um homem, vai achar estranho ou descabido.

Então, onde ficou a igualdade afinal?

As pessoas preocupam-se tanto em tentar perceber aquilo que na vida do outro não corresponde aos padrões, aquilo que está mal na vida da prima, da amiga, da colega de trabalho, que se esquecem de viver a sua própria vida. O nosso tempo é precioso e, infelizmente, ainda não anda para trás. Já parou para pensar no tempo que perdemos com preocupações que nem sequer nos dizem respeito? A vida é agora! Vamos, de uma vez, viver a nossa própria vida e dar valor ao que realmente importa?

Toda a gente nos pergunta se já arranjámos marido, se nos vamos casar, se já temos um emprego novo. Porque é que ninguém nos pergunta se estamos felizes? Se quisermos, temos um filho aos 18, casamo-nos aos 50 e vamos para a faculdade aos 60. E se o Mário quiser ser manicuro e a Maria camionista, deixemo-los ser! Por não ser considerado “o normal”, não significa que seja reprovável.

Como dizia um anúncio da televisão: “se gostássemos todos do mesmo, o que seria do amarelo?”.

Vamos, de uma vez, entender que cada um se encontra no seu caminho individual. Não existem escolhas de vida ou opções melhores ou piores – existem sim decisões diferentes, mas que dentro do diferente não são menos dignas. Confie em si e seja fiel a si mesma, independentemente daquilo que o mundo afirma ser “o correto”.

Não há nada de errado consigo. Agora já pode respirar. Até porque, sabe que mais? Não está sozinha!

Levante a cabeça e sinta-se bem.

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