Marta Martins: Um Testemunho Real de Uma Luta Cheia de Esperança

Marta Martins é psicóloga, é mãe de Alice, e é também uma verdadeira lutadora. Aos 34 anos foi-lhe diagnosticado cancro da mama, sem sequer imaginar que esta poderia vir a ser uma realidade presente nos seus dias.

Hoje, e ainda a enfrentar esta luta, Marta conta-nos como é combater esta patologia, que não escolhe idades, nem género, afirmando que as coisas mais simples da vida são as melhores do mundo.

Leia, na íntegra, a entrevista a um exemplo real de força.

 

Como é que descobriu que tinha cancro da mama? O que sentiu nesse dia e qual o seu primeiro sentimento?

Lembro-me de sentir um “carocinho” na mama direita e de pensar que não seria nada de especial… Não consigo precisar o momento exato em que o detetei, pois não lhe dei grande importância e nem tão pouco o descobri em alguma palpação de rotina (foi a vestir o soutien ou a colocar creme no corpo, nem sei bem). Sim, porque o tema “cancro da mama” não constava na minha rotina e pouco ou nada pensava sobre o tema. O meu companheiro dizia que o caroço devia ser um género de um nervo que passava naquela zona da mama. Ainda assim, estranhei aquele corpo estranho e novo em mim, pois nunca o sentira anteriormente e decidi marcar uma ecografia mamária. Este exame não era novo para mim, já tinha realizado algumas ao longo da minha vida, pois até sou uma pessoa que vai ao médico com alguma regularidade e faz os seus exames de rotina.

No dia da ecografia, a médica desde logo disse que, possivelmente não seria nada, mas devido ao contorno do “caroço”, o melhor seria mandar para biópsia… e assim foi.

Passada uma semana, por grande ironia do destino, no mesmo dia em que me aprontava para ir buscar os resultados ao hospital, recebo um telefonema da médica: “Olá Marta, já saiu o resultado… é um cancro”. Não percebi bem… um cancro? Mas dos bons ou dos maus? Se é que há cancros bons…

A médica, com uma voz doce respondeu: “Dentro dos maus, é dos melhores”. A minha voz tremeu, o meu corpo, por momentos, parece que levitou e chorei… Não consigo precisar o que senti, mas pensei de imediato na minha bebé. Tinha sido mãe pela primeira vez, há exatamente 11 meses. Onze meses de Alice. E agora isto?

Naqueles primeiros minutos liguei à minha mãe e à minha amiga Adriana e chorei, chorei tanto… mas foi tudo tão rápido e tinha tão pouca informação que nem foi possível processar tudo o que me tinham dito. Decidi não ligar de imediato ao Duarte, o meu companheiro, pois estava a trabalhar e esta informação em nada iria beneficiar o seu dia de trabalho. Neste dia, em que recebi a noticia, tudo foi vago e distante, pois se por um lado esta noticia chegou que nem uma bomba, por outro, eu não sabia que cancro tinha eu afinal e qual seria o protocolo de tratamentos ou cirurgias a seguir. Não sabia, de todo, o que me esperava…

 

Depois de receber a notícia, como se preparou para enfrentar a doença? Fez alguma pesquisa? Procurou conhecer pessoas que estivessem a passar pelo mesmo?

Depois de receber a “notícia bomba”, seguiram-se uma série de consultas e de exames. A consulta, para finalmente perceber que cancro era o meu. E era um dos maus, mesmo (Her2+). Foi-me dito que há uns bons anos atrás, as mulheres que o tinham, acabavam por não sobreviver ao mesmo, mas que hoje em dia já não era assim.

Depois desta primeira consulta em que fiquei a conhecer o que estava dentro de mim e o que me esperava – cirurgia conservadora da mama e longos meses de quimioterapia e radioterapia – chorei muito, chorei tanto e só pensava na minha bébé, ainda tão pequenina. Pensei que queria estar aqui para ela, para o meu companheiro, para os meus pais, amigos e família, agora e sempre, e que não estava preparada para outra coisa que não isto! Não houve preparação possível, fui “caminhando” ao sabor dos acontecimentos. Tentei ser o mais forte que conseguia. Fui operada à mama a 26 de Abril, seguiu-se o 1º aniversário da Alice e o meu 35º, a 11 e 17 de Maio, respetivamente. Fizemos uma festa em grande, repleta de família e amigos. E foi tão maravilhoso sentir tanto amor. A minha mãe veio morar comigo, com o Duarte e a Alice. Precisava e ainda preciso da ajuda dela enquanto estou em tratamento. Tem sido fundamental na minha cura, na minha vida. Aliás, sempre foi. Ela e o meu pai, que preferiu ficar em casa deles com a cadelita.

Inicialmente, não fiz pesquisas. O Google pode ser muito cruel e a informação que recebera tinha sido suficiente, por enquanto.

Liguei a uma ex-colega de curso que, durante a nossa tese de mestrado, tinha passado por um cancro também. Ela foi doce e reconfortante. Disse-me que se avizinhava um longo processo e lembro-me também de ter sentido que ela não quis adiantar muitos mais pormenores, dizendo-me para lhe ligar sempre que precisasse. Hoje, compreendo o porquê. Do que adianta dizer que vamos passar mesmo mal, que este processo é tão duro que não se explica?

A quimioterapia… pensei que podia morrer da cura, sentia-me fraca, sem vontade nem forças para nada… não sabia que seria assim. Tinham-me dito que não seria fácil, só não sabia que seria tão difícil. As más disposições, náuseas, fraquezas, oscilações de humor, insónias, cabelo e unhas a cair, afrontamentos… enfim, um role de sintomas que me perseguiu e ainda me acompanham e que fizeram de mim uma pessoa que eu própria desconhecia. Não era eu. Eu não era a Marta. Eu ainda não sou a Marta. Mas vai-se fazendo, continuando a caminhada, a dura caminhada, pois não há outra opção senão tentar fazer o melhor que conseguimos, ainda que por vezes pareça tão pouco. Foram cinco meses de quimioterapia. Terminei-a há exatamente uma semana. Foi uma prova e eu superei-a. Com muito custo e às vezes zangada, muito zangada mesmo, mas conclui-a e só peço que me tenha livrado dela para sempre. É tudo o que quero, mesmo!

 

Quais foram as maiores dificuldades em lidar com as mudanças que o cancro lhe trouxe? Como é que se aceitam as transformações?

Não consigo salientar uma mudança única e mais importante, pois são tantas. Mas houve uma que temi: o cabelo! E, então, enfrentei-o… em duas/três semanas cortei-o umas cinco vezes. Estava pelo meio das costas e o que fiz foi cortar pelos ombros e depois mais acima, e a seguir fazer franja, até chegar ao ponto de não gostar do penteado. No dia em que ele caiu um pouco mais do que o habitual, fui literalmente a correr ao cabeleireiro e rapei-o! Não queria passar pelo processo de me caírem imensos cabelos e ficar com peladas. Pensei mesmo que fosse mais difícil. Lembro-me de passar fisicamente mal e de pensar: “que se lixe o cabelo, quero é que me passe a má disposição”!

Ainda experimentei diversas próteses capilares, as chamadas perucas, e reservei uma. Era um cabelo lindo, comprido e castanho, de cabelo natural. Fui à loja três vezes e nunca tinha coragem de a comprar. Não me sentia eu… achava sempre que se notava que aquele cabelo, por muito bem trabalhado e natural que fosse, não era o meu. Então decidi assumir a minha falta de cabelo e até hoje, ando assim… de careca à mostra. Claro que isto é apenas uma opção pessoal e cada uma deve seguir o que melhor a fizer sentir. Nem lenços consegui utilizar, acho sempre que me deixam com um ar mais frágil ainda do que o que estou.

É óbvio que desejo tanto, mas tanto mesmo ter o meu cabelo novamente. Sou honesta…odeio ver-me assim, careca. Não há roupa, nem maquilhagem, nem lenço, nem malas ou sapatos que me façam sentir bonita como d’antes. Sempre fui relativamente vaidosona, adorava arranjar-me, comprar roupitas e aprumar-me. Hoje em dia não é bem assim. Continuo a arranjar-me quando vou a algum lado, mas não da mesma forma, só e apenas porque sinto que me faltam pedaços. A minha estratégia, e isto foi só a minha forma de ultrapassar os acontecimentos, passou por esquecer-me dessa parte mais glamourosa. Pensar que agora o pretendido é ficar boa, e que isso implicou engordar, perder o cabelo e todo os outros pelos, menos as sobrancelhas que teimaram (e ainda bem) em não cair, não poder arranjar as unhas das mãos ou dos pés, perder uma unha do pé (e olhem que o processo não é nada bonito) ficar com as unhas das mãos manchadas, entre tantas outras coisas… Mas focar-me sempre e, mesmo nos momentos mais difíceis, pensar: “Depois do tormento, renasço das cinzas e até, talvez, mais forte que nunca”.

Qual a alteração de que mais receava?

Acho que acabei por responder na questão anterior. Mas ainda assim, acrescento que, sem ser o cabelo, penso não ter receado grande coisa, pois tudo para mim era desconhecido. Fui receando à medida que fui passando pelo processo em si. Por exemplo, na primeira vez que fiz a quimioterapia, fui sem receios ou expetativas… e passadas quatro horas de me terem administrado a chamada “quimio vermelha”, senti que o meu corpo ia colapsar… então a partir daí passei a temer cada sessão de quimioterapia. Esta quimioterapia, para mim, foi extremamente cruel e deitou-me ao chão… fez-me desacreditar na vida e pensar que eu não merecia o que se estava a passar. Mas quem é que merece um cancro? Quem é que merece não ter forças para pegar ao colo a própria filha ou não ir à praia no seu primeiro ano de vida? Ninguém, claro está!

 

Onde se encontra força para lidar com esta situação? Existe algum refúgio que a ajude neste processo?

Não sei onde se encontra a força. Talvez na família e amigos e em todo o amor que recebemos. Talvez a força até esteja dentro de todas nós e só a descobrimos quando passamos por estas provações. Ou então o processo é natural… sabemos que o caminho é duro, mas que é o nosso e, inevitavelmente, temos que o trilhar. Qual seria a outra opção? Não fazer o tratamento? Jamais! Esconder-me em casa porque estou gorda, careca e tenho que, com este frio, andar de chinelos por causa da unha? Não é sequer uma opção. Não gosto, mas aceito-me! Faz parte do processo. Quero ficar boa, tenho esperança. E medo também, muito! Mas guardo-o para mim, lá bem escondido nos meus pensamentos… e se não resultar? E se voltar a aparecer? Também não sei… logo se vê. Sei que quero viver!

O que mudou na sua forma de ver a vida? E os seus objetivos a longo prazo, mudaram?

Sabem aqueles provérbios: “Com saúde tudo se faz” ou “Mal por mal, antes na cadeia que no hospital”? pois, é mais ou menos isto. Sempre desejei saúde a todos os meus amigos e familiares nas mensagens de parabéns, em casamentos, despedidas de solteira, festejos, postais… mas, agora, compreendo a verdadeira dimensão e significado da mesma. Sem ela nada se faz. Ela dá-nos e tira-nos as forças que precisamos não só para viver, mas para viver bem, felizes e em harmonia. Mais do que nunca, compreendo que preciso dela e que tenho de tratar de mim, para que ela esteja boa também. Não penso muito em objetivos a longo prazo, mesmo. Sei apenas que quero e preciso de descansar… sinto-me tão cansada, exausta mesmo. Também sei que quero levar a Alice à praia, que quero nadar com ela no mar e sentir os meus pés na areia…

 

Agora, ainda em fase de tratamento, pelo que mais anseia?

Que o tratamento termine. Iniciarei a radioterapia brevemente, 20 sessões, 4 semanas, todos dias. Que passem rápido estes meses e que me comece a sentir a Marta, novamente. Talvez nunca mais seja a mesma Marta, mas anseio ver-me livre deste processo…descansar. Não ver a vida a fugir e eu em casa, fraca, sem disposição. Sentir-me feliz e livre…

Existe algo de positivo a reter de toda esta fase? Alguma coisa a surpreendeu pela positiva?

De positivo, durante todo este processo, trago comigo a resiliência e o amor de toda a família e amigos. Mas, mais do que isso, lembro-me de pensar muitas vezes que não somos ninguém sozinhos… que tudo é mais fácil, doce e bonito se partilharmos o nosso mundo com quem escolhemos para as nossas vidas: amigos, família, marido, filhos, enteados. Que tudo se torna menos pesado com a partilha e que, ao longo das nossas vidas, tantas vezes valorizamos coisas que, na verdade, nada importam. Nunca estamos satisfeitos com o que temos e passamos a vida a fazer “queixinhas”, sem nos apercebermos o quão abençoados somos. As coisas mais simples são mesmo as melhores do mundo. Acreditem.

 

33 Comentários
  1. Muita força deus é Grande e vai com toda a certeza superar toda esta fase menos positiva, muita força e vai passar rápido pra viver muito e muito junto da princesa e todos os seus bjinho enorme 🙏💪😘💗

  2. Testemunho de muita coragem e perseverança. Obrigada por partilhar, com certeza que irá ajudar muitas outras pessoas. Muita força guerreira!

  3. Tu és forte Marta e vais conseguir ultrapassar esta fase menos positiva
    Tens uma família linda quê está apoiar-te
    Beijinhos grandes para ti e para o Duarte

  4. Beijinho enorme Martinha… lembro-me de ti desde os 4 anos 😊 e que boas lembranças! Desejo-te o melhor do fundo do coração ❤️😘

  5. Adorei ler este testemunho. A minha mãe teve cancro de mama e é impressionante como a vida pode mudar tão rápido. Muita força e muita saúde, vai correr tudo muito bem.

  6. Que realidade tão difícil de aceitar e de ultrapassar… Mas acredito que tudinho voltará a ser belo,talvez c outros olhos…mas com os seus encantos e novos valores.
    Força …está quase.

  7. Adorei de coração ! Muita força para a Marta , acreditar em nós mesmos é muito bom para vencermos estes contratempos que a vida nos dá !

  8. Marta muita força!!Gostei de ler o teu testemunho realmente as vezes somos piquinhas e damos valor a coisas tão ridículas e tudo o que devemos fazer é agradecer a saúde que temos e estar rodeados das pessoas que amamos. Tu tens uma cara linda és mesmo muito bonita e não é por estares careca que deixas de o ser, realça ainda mais a o teu rosto lindíssimo. Força para esta fase final. Grande mulher tal como muitas outras que lutam contra este monstro chamado cancro. Que inspires muitas outras e muita sorte a todos os niveis para ti e para a tua família. Beijo grande

  9. Um exemplo de vida, de força, de coragem.
    O seu testemunho é e será sp importante pois cada vez mais estes casos são o prato do dia infelizmente 😔
    Eu agradeço e quero lhe desejar k este terramoto acabe e k volte a ser a mulher k era, pois tem um longo percurso à sua frente com a sua kerida Alice.
    Um bem-haja p si e p a Vanessa, k tb precisou de mta coragem para ouvir e escrever o seu testemunho❤️❤️

  10. A maior força Marta ❤️ um testemunho lindo, o seu 🙏 Obrigada por partilhar connosco 😘 que seja um novo recomeço, será muito feliz e ainda tem tanto para viver ❤️

  11. Muita forçinha, Marta! Vejo tanto amor e tanta determinação nas suas palavras…
    “que se lixe o cabelo, quero é que me passe a má disposição”! 🙂 um bem haja às pessoas positivas como a Marta… Um abraço apertado *

  12. Grande prova de vida que serve para todos nós….estamos a torcer eu e o teu Balu.
    Beijinho de boa sorte e sem querer em algumas frases fizeste-me pensar no que raramente penso.
    Bora!!!

  13. Olá Martinha, eu sou a Lai amiga de longa data da Tonicha, sua/tua mãe. Entrei na página do teu companheiro com autorização da mãe para ler o teu testemunho. Embora não seja o mais importante, está muito bem escrito e explicado o que é o “papão” que agora enfrentas. Poderia dizer ou melhor, vou dizer , com toda essa coragem, amor por todos que te são queridos e determinação, tu vais vencer porque a força e vontade está dentro de ti.
    Parabéns por seres uma linda filha, mulher e mãe. Força Marta . Um beijo

  14. Meus Deus. Chorei a entrevista toda. És linda Marta, linda mesmo. Linda por dentro e por fora. Tens uma força extraordinária.Está quase. Pensa no mar, no pé na areia, nas brincadeiras com a tua filha é já já acaba.
    Beijinhos muito grande

  15. Força Marta. Tudo vai correr bem.
    A minha mãe também teve cancro da mama e foi operada e ficou Boa. Por isso fé.
    Beijocas grandes vai dando noticias linda.

  16. Querida candengue que eu amo, que tu és uma guerreira, todos sabemos. Não nos vais decepcionar. Bjokas cheiiiiiihos do carinho que sabes

  17. Um lindo testemunho , menina guerreira , que a vida sorria sempre , Deus te abençoe . Um grande beijinho. 😙♥️

  18. Também passei por tudo isso. Já passaram 2 anos e por enquanto tudo continua bem. Com o tempo vamos esquecendo. O cabelos e as unhas crescem e a memória da quimioterapia vai-se desvanescendo. Fica-se mudada mas acho que para melhor. Da-se mais valor às pequenas coisas. A família e aos amigos que connosco estiveram. E o maior desejo é mesmo nunca mais voltar a fazer quimio.
    Já estás quase no fim e tudo vai correr bem. Força e um grande beijinho

  19. O final só pode ser a cura, pois o universo já enviou todas as forças positivas para que assim seja porque tu és forte. Tem fé menina linda. Beijinhos.

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