Ana Garcia Martins, a Mulher por Detrás da “Pipoca”

Nasceu em Lisboa, tem um blogue, é autora de vários livros e mãe de dois filhos. Falamos de Ana Garcia Martins – também conhecida como A Pipoca Mais Doce – uma das primeira bloggers a surgir em Portugal, que conseguiu desdobrar-se em múltiplas facetas, integrando vários projetos em simultâneo, tendo até criado as suas próprias marcas e, recentemente, enveredado pelo caminho da comédia.

A Frederica quis saber um pouco mais sobre esta mulher inspiradora. Leia, aqui, a entrevista completa.

 

Recentemente, decidiu acrescentar mais uma valência ao seu extenso currículo, o stand-up comedy.  Dado que é mulher e que existem ainda muito poucas pessoas do sexo feminino a fazer carreira nesta área, sente alguma dificuldade neste novo começo.

Há muito poucas mulheres a fazer stand-up, sobretudo em Portugal. É um meio tradicionalmente masculino e, por isso mesmo, sinto que ainda sofremos alguma resistência. O público fica um bocadinho de pé atrás quando vê uma mulher subir a palco e é mais difícil gerar empatia. Sinto sempre que estou a ser testada, não só por ser mulher mas por também haver muita gente que já tem uma ideia preconcebida a meu respeito, por causa do blog. É difícil contrariar isso mas, ao mesmo tempo, é um desafio. Há uns tempos, depois de uma actuação, uma pessoa veio ter comigo a dizer que tinha decidido não me achar graça, mas que depois se fartou de rir e que ficou bastante surpreendido. E eu gosto disso, de desarmar as pessoas e de fazê-las perceber que, afinal, há mais mundo para além da Pipoca. Mas voltando ao tema das mulheres no stand-up, sinto que não temos tanta liberdade nos temas que podemos abordar e no tipo de linguagem a que podemos recorrer. Os homens podem dizer tudo, as mulheres têm de ter cuidado para não parecerem vulgares. E essa limitação irrita-me.

Foi mãe de uma menina há muito pouco tempo. O que gostava que mudasse na sociedade feminina, quando/se um dia a Benedita for mãe? O que espera que tenha já mudado/melhorado nessa altura?

Espero, essencialmente, que ela cresça num mundo em que homens e mulheres tenham acesso às mesmas oportunidades, em todas as áreas. Para mim, essa continua a ser a questão fundamental e a essência do feminismo. Infelizmente, hoje em dia acho que muita gente assume posições que ridicularizam o feminismo, fazendo com que se enfie tudo no mesmo saco e com que questões verdadeiramente relevantes passem para segundo plano. Mas, acima de tudo, quero que os meus filhos sejam pessoas respeitadoras, conscientes, atentas, e preocupadas com todos os que os rodeiam. Sejam homens ou mulheres.
De que forma lida com as críticas vindas de algumas mulheres, quando estas surgem com a intenção de denegrir a sua imagem profissional?
Aquele chavão de que as mulheres são as suas piores inimigas é completamente verdade. O meu público é 85% feminino e são elas as primeiras a fazer críticas descabidas, a ser maldosas e a alimentar e manifestar uma data de sentimentos negativos. Parece que estão sempre a puxar para baixo. Em vez de se celebrar o sucesso dos outros e lutarmos para conseguirmos as mesmas coisas, queremos é que os outros estejam tão mal como nós. Há uma enorme falta de empatia entre mulheres, é assustador. Na maioria das vezes opto por ignorar, apago os comentários maldosos, bloqueio quem eu acho que não se sabe comportar nas redes sociais e sigo com a minha vida. Mas há outras vezes em que me vejo obrigada a responder, porque há mesmo gente que passa das marcas e é preciso fazer ver que nem tudo é passível de ser dito. É preciso impor limites.
A Ana foi uma das primeiras bloggers femininas a surgir. Sente que tem algum destaque especial na sociedade por esse motivo? Acredita que, através do que diz, pode ser uma voz ativa e deter alguma responsabilidade em mudar mentalidades? 
Hoje em dia fala-se muito do termo “influenciador”, que é uma coisa que me provoca alguma urticária. O termo está muito associado ao consumo, à capacidade que os bloggers/instagramers/youtubers têm de influenciar o processo de compra dos outros. Tendo eu uma plataforma que chega a tanta gente, prefiro que a minha potencial influência seja utilizada noutras coisas. Mais do que querer que as pessoas comprem o creme X ou o perfume Y, quero que que tenham uma consciência cívica, que se envolvam em causas sociais, que debatam temas prementes e que realmente possam fazer a diferença na nossa vida. Para mim, essa é a grande mais valia dos ditos “influenciadores”: termos uma voz, podermos usá-la e, com isso, podermos pôr a nossa comunidade a discutir, saudavelmente, coisas verdadeiramente importantes e com impacto.
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